DIA INTERNACIONAL DE COMBATE AO FUMO.

(Dr. Luciano Souza A. de Carvalho – Pneumologista e Coordenador do Pronto Atendimento do HNA)

 

Hoje, dia 31/05, é o Dia Mundial de Combate ao Fumo e por que falarmos de luta contra o tabagismo em meio a uma pandemia de COVID 19? Por três motivos bem objetivos. O primeiro, porque é o dia instituído para afirmarmos anualmente a importância de se combater este mal. O segundo, porque o tabagismo é sabidamente um dos comportamentos de risco associado a formas graves, muitas vezes fatais, da COVID 19. O terceiro, porque a pandemia, por mais intensa que se mostre, vai passar, ao passo que o tabagismo é perene em nossa sociedade e deve ser combatido diuturnamente para que cada vez menos pessoas sofram e morram deste mal.

Apresentar dados sobre o consumo de tabaco ou listar sobre as doenças e suas complicações causadas pelo consumo de cigarros é bastante conhecido e facilmente encontrado em pesquisas e matérias. Gostaria de realizar um histórico sobre o tabaco e buscar um entendimento sobre como hoje vivemos uma dolorosa consequência de um consumo inadequado e incessante desta planta.

O tabaco é uma planta nativa das Américas e conhecida pelos habitantes deste continente há milhares de anos. Sempre utilizada mascada ou fumada, em rituais de cura, ou religiosos. Durante todo este período o tabaco esteve restrito a estes povos.  Com a descoberta do continente americano pelos europeus inicia-se uma nova fase desta história.

No século XVI, Jean Nicot, diplomata e médico francês, introduziu o tabaco na corte francesa, utilizado moído e aspirado pelas narinas como rapé, para alívio de enxaquecas. No século XVII, principalmente na Inglaterra, o tabaco passa a ser fumado em cachimbos. E a partir do século XIX, a utilização do uso na forma de cigarros passa a ser difundido por várias regiões do mundo, principalmente na Europa.

O grande aumento do uso de cigarros acontece após a Primeira Guerra Mundial, com o desenvolvimento industrial de sua produção. Na década 1920, o uso recreativo de cigarros, ganha padrão de status social com desenvolvimento de diversos formatos e sabores. Na década de 1960, o cigarro passa a ser associado a imagem masculina de virilidade e é utilizado em diversos filmes de Hollywood com este fim, passando a compor um estereótipo publicitário.  No final desta mesma década aparecem os primeiros trabalhos científicos associando o uso de cigarros com o câncer de pulmão. As décadas subsequentes mostram um grande aumento no consumo de cigarros, decorrentes de muita publicidade da indústria do tabaco, principalmente entre jovens. Ao mesmo tempo, na comunidade científica cresce o conhecimento a respeito de doenças causadas pelo cigarro, e um embate ideológico inicia-se. De um lado, a indústria do tabaco negando a relação destas doenças com o cigarro e de outro, entidades de representação científica e civil, mostrando a forte relação entre cigarro e doenças.

A partir da década de 1990, os governos, inicialmente de países europeus, atendem aos anseios da comunidade científica e passam a criar legislações que restringem o uso, a publicidade e a venda de cigarros, assim como aumentam as informações sobre os efeitos nocivos. A partir de então, o consumo de cigarros vem gradativamente reduzindo em vários países, mas ainda assim, temos cerca de um bilhão e trezentos milhões de fumantes no mundo inteiro e 80% deles vivem em países subdesenvolvidos e nas camadas populacionais mais pobres. O uso de cigarros participa ativamente da morte anual de 8 milhões de pessoas em todo o mundo.

Lutar pela cessação do tabagismo é lutar contra uma indústria poderosa que apesar de ter todos estes números assustadores continua mantendo suas atividades, mesmo que parte dos governos, e principalmente de setores da sociedade civil estejam em franco embate para preservar estas vidas.

Lutar pela cessação do tabagismo é inibir, principalmente no Brasil, o tráfico de cigarros contrabandeados de nosso vizinho Paraguai, cuja produção é 80% trazida ao Brasil de forma ilegal, alimentando parte da cadeia do crime organizado.

Lutar pela cessação do tabagismo é oferecer aos usuários um plano de tratamento adequado às condições sócio econômicas e às condições comportamentais de cada um.

Por fim, lutar pelo tabagismo é insistir em educação, geral e específica, para desestimular o consumo de uma substância desnecessária ao indivíduo e ao convívio social.